Globo: a gentinha se vê por aqui

Não adianta mais (se é que um dia adiantou) a camada intelectualoide do país torcer o nariz para o Big Brother Brasil. Independentemente do quanto a premissa inicial do jogo criado pela holandesa Endemol tenha sido deturpada pela Rede Globo, o show atinge todas as camadas sociais brasileiras enquanto cria mocinhos e vilões da vida real. Não só isso: a cúpula do programa muitas vezes delega a seus participantes o peso de representar um grupo social presente no mundo aqui fora. O caso mais evidente é o dos três participantes abertamente gays da edição atual. Desde o primeiro dia de confinamento, Angélica, Dicésar e Sérgio desapareceram da casa mais vigiada do Brasil para dar lugar aos “Coloridos”.

Talvez você não lembre bem de quem eram todos os “Belos” ou “Ligados”, mas sabe até hoje quem são os Coloridos, ainda que as tais tribos já tenham sido oficialmente desintegradas. É impressionante como os três participantes gays são vistos quase que como um organismo só, os embaixadores da comunidade queer perante o povo brasileiro. Estamos com um projeto de lei contra a homofobia engavetado e extremamente polêmico; somos o país que mais contabiliza assassinatos de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros; este mês marca dez anos desde o cruel assassinato do adestrador de cães Edson Néris por um grupo de skinheads que o viu de mãos dadas com outro homem; recentemente, um beijo entre duas garotas virou caso de polícia no Rio. E você vem me dizer que “isso é só um jogo”.

Se esta edição tem algum mérito (e é difícil achar um), talvez seja o de fazer com que nós, GLBTs brasileiros, percebamos estar mais sozinhos do que imaginávamos. Um tapa na cara, um acorda-pra-realidade. Não que achássemos que o Brasil gostasse de nós, mas não sabíamos muito bem a proporção da homofobia do nosso povo. Não esperávamos ver celebridades (e, principalmente,  subcelebridades com legiões de fãs gays) fazendo pouco caso frente ao preconceito sofrido pela nossa comunidade, relativizando sempre que possível (e quando impossível, fingindo que não ouviram) as falas homofóbicas do participante especialmente selecionado pra antagonizar a “Frente Colorida” do BBB. Sim, porque se você acha que o machista e homofóbico Marcelo Dourado é popular por ser “autêntico, sincero e gente boa”, tá precisando de um tapa na cara igual ao que deram na gente. Autêntico na sua homofobia, sincero ao afirmar que o único motivo que o levaria a não bater em uma mulher seria o medo da punição, boa gente porque coloca a subgente em seu devido lugar.

Ah, mas ele também é excluído, né? Aquela casa colorida, um oásis de relativa tolerância num deserto de proporções continentais, deve ser um martírio pra ele. Pobrezinho. E eu que achava que tinha sido o próprio Marcelo que havia se afastado daquela gente pra não ser “abduzido”. Que mané Serginho ter sido espancado na rua por homofóbicos? Quem se importa se o Dicésar foi ridicularizado quando tentava fazer valer seus direitos numa delegacia de polícia? A Angélica foi privada pela mãe homofóbica do contato com o pai após se assumir lésbica? Grande coisa. Comovente mesmo é um macho ferido na sua ignorância.

Pô, gente, mas também não exageremos, né? O Dourado nem é homofóbico como dizem. Ele chamar a gente de anormal, perder o apetite quando o assunto no almoço é balada gay, comparar a menção da homossexualidade à mesa à inconveniência e repugnância de um arroto, morrer de medo de ser apontado como gay e se sentir ofendidíssimo quando sente isso acontecendo, nada disso é homofobia. Homofobia é espancar viado, estuprar sapatão. Nós, GLBTs, temos mais é que agradecer a todo mundo que não bate na gente, só nos acha doentes. Valeuzão, Dourado!

Mesmo porque, e daí se ele for homofóbico? É um direito dele, certo? Igual a ser gay. Assim como nós temos o direito de buscar uma existência digna através da luta pelos direitos que nos são negados, sem interferir na vida de ninguém, os homofóbicos têm todo o direito de meterem o bedelho na nossa e nos julgarem, mesmo que não tentem explicitamente atrapalhar a nossa jornada. Porque gay bom é gay assexuado (pra dizer o mínimo), como o Jean Wyllys. Essa sapatão da Angélica dá em cima de mulher só pra afrontar a moral e os bons costumes.

Não é culpa dos homofóbicos não gostarem de nós, é culpa da ignorância. E já que todo preconceito é fruto dela – geralmente misturada com doses cavalares de ódio, vamos perdoar todos os preconceituosos, inclusive os agressores físicos e assassinos.

Então, Marcelo Dourado e seus seguidores, desculpa qualquer coisa, tá? Mil perdões.

~ por ramondemon em fevereiro 24, 2010.

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