4 de julho

Hoje faz exatamente oito anos que minha vida desandou por completo, e pouca coisa parece ter mudado desde então. No dia 4 de julho de 2000, eu, com dez anos de idade, dei meu primeiro beijo gay, no meu melhor amigo de toda a infância. Foi antes de irmos dormir, no meu quarto, em frente ao banheiro social, onde minha mãe se esforçava pra fazer minha irmã mais nova escovar os dentes. Passei meses em profunda depressão, tentando me acostumar com a idéia de ter beijado outro garoto. Quando finalmente consegui digerir o fato, outro fantasma veio me assombrar: a possibilidade de minha mãe, no banheiro na frente do meu quarto, ter visto a cena. Passei os próximos anos da minha vida (o término da infância, a pré-adolescência e o início da adolescência) me machucando por isso.

Quando passei a aceitar o fato de que eu era gay e que não havia nada de errado nisso, achei que conseguiria superar os acontecimentos daquele fatídico 4 de julho e recuperar a felicidade de outrora, mas estava enganado. O sofrimento de anos a fio havia me imputado uma marca de dor insuperável: o transtorno obsessivo-compulsivo. Ele surge em pessoas com um peso na consciência tão forte, que passam a realizar rituais repetitivos pra punirem a si mesmas (como lavar as mãos até elas sangrarem ou só terminar o banho quente quando conseguir mentalizar de forma satisfatória o som de um lápis grafite caindo no chão de cerâmica grossa; ou nunca pisar nos limites entre os ladrilhos da calçada; ou voltar diversas vezes à escola pra verificar se realmente pegou o seu filho que está segurando na sua mão, assustado; ou não tocar em maçanetas; ou não dormir enquanto não tiver rezado o rosário três vezes para se purificar; ou jogar todas as suas roupas no lixo e pedir novas, porque as antigas estavam sujas; ou sempre policiar os seus pensamentos de modo a não machucar ninguém além de si mesmo).

É óbvio que eu sempre terei essa desvantagem em relação aos outros garotos. E o fato de eu andar freqüentemente deprimido faz as pessoas se afastarem de mim, julgando-me arrogante ou anti-social, e mesmo acreditando em mentiras que andam espalhando por aí sobre mim. A verdade é que eu preciso de amigos e de pessoas que realmente se importem comigo pra que eu possa, por alguns instantes, esquecer de mim e dos meus problemas, e viver o que me resta da adolescência. E eu sinto falta, acima de tudo, de alguém com quem dividir os meus planos futuros e que me ligue às dez horas da noite pra me desejar bons sonhos. Então quando você ralhar comigo por um motivo qualquer ou decidir que eu não mereço a sua atenção ou o seu amor, ou ainda preferir acreditar que eu estou tentando destruir todos os laços afetivos ao meu redor, lembre-se de que eu sou uma ferida aberta. E como ferida aberta, não preciso de mais adagas apunhaladas nas minhas costas.

Por favor, aceite meus pedidos de desculpa pelo que eu não fiz. Eu preciso tanto me livrar do seu fantasma.

~ por ramondemon em Julho 4, 2008.

3 Respostas to “4 de julho”

  1. Brother, sua situação é complicada, porque você deixou complicar. Pq resolveu ser gay? Já parou para pensar? Olha Ramon, eu tenho colegas gays, não tenho nada contra. O que quero dizer é que a maioria de vocês, se escondem de si mesmos. Não se assumem. Não são felizes 100%. É isso mesmo que vc quer? Viver o resto de sua vida tentando ser alguém, onde vc não consegue ser livre?

    Não há nada mais gratificante do que liberdade. Liberdade no amor, na amizade, na vida profissional e familiar.

    Acha mesmo que outro homem se importa se você terá bons sonhos ou não? Isso, creio eu, no meu mundo fechado, que é coisa de mulheres. Esse é o papel delas. Serem românticas. SentimentaIS. Zelosas e tal.

    Cara, repense sua vida o quanto ainda tem 18 anos. Pq depois dos 20, sua visão do mundo mudará! Mudará se vc tiver uma boa cabeça, PORQUE OS JOVENS DE HOJE, PERDERAM A ESSÊNCIA DA VIDA EM FAMÍLIA.

    Abraço!!!

  2. E qual foi a reacao do seu amigo quando voce lhe beijou? Continuaram amigos?

  3. Julio Frutuoso, ninguem “resolve” ser gay. Ja esta mais do que provado scientificamente que a sexualidade nao eh opcao. Voce por um acaso escolheu ser heterosexual? Acredito que nao. Pois a mesma coisa acontece com os gays, as lesbicas e os transsexuais.

    Eu acho Julio que voce precisa abrir os SEUS OLHOS antes que voce seja velho demais e nao tenha mais capacidade de perder seus preconceitos. Porque nao comeca por conversar com pessoas gays e descobrir um pouco a vida delas, como descobriram que gostavam de pessoas do mesmo sexo, etc? Ou melhor, porque nao pega algums livros de psicologia moderna e da uma estudadinha?

    Nao tem nada errado com o Ramon; o problema eh com voce e sua visao limitada.

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